Sentir-se amado há coisa melhor?
Martha Medeiros, traduz essa necessidade brilhantemente.
O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama.
Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.
Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se.
A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também?
Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.
Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. "Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho".
Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d´água. "Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando? Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. Vem aqui, tira este sapato."
Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.
Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.
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sábado, 18 de janeiro de 2014
segunda-feira, 10 de junho de 2013
São Jorge
São Jorge contra o dragão da maldade
Sempre tive pena de São Jorge, condenado eternamente a lutar com o dragão, a luta que nunca chega ao fim, criança, eu imaginava que ele deveria ter mulher e filhos e que gostaria de poder voltar para casa, para cuidar das coisas do amor e do prazer. Foi então que um velho contador de estória, especialistas em memórias perdidas, me revelou o terrível segredo. São Jorge brigava com o dragão porque queria. Bem que tinha tido uma chance de terminar com seu suplício sem fim. E relatou:
Era uma vez, há muito tempo, um jovem guerreiro se apaixonara por uma linda donzela. Tão bravo e belo ele era que, das vizinhanças; todas as mulheres por ele se apaixonaram. Inclusive uma bruxa horrenda, que morava nos cenários desertos da lua e que, mesmo daquela distância infinita, com seus olhos telescópicos, havia contemplando o rosto do guerreiro. Mas sus olhos malvados, que tudo viam , viram também o romance do mancebo que passeava, mão dadas com sua amada, por viçosos jardins floridos. A inveja foi imensa, e lá das lonjuras lançou um feitiço: transformou a jovem princesa em dragão.
Mas foi inútil, o bravo Jorge continuo apaixonado por saber que no corpo escamoso morava a sua paixão. Mais furiosa ficou a bruxa e aumentou o feitiço. Decretou que o dragão encantado se transladace para lua, muito longe do apaixonado. Mas Jorge não se deu por vencido. Em noite de lua cheia, montado em seu cavalo, cavalgou no luar, e voou rumo á luz para a sua amada encontrar. Pobre bruxa malvada! Viu-se condenada a ver os dois apaixonados, dragão e guerreiro, bem diante de seu nariz, a namorar. E invocou o seu ultimo feitiço. “Se tu queres a tua amada de volta” ela disse ao mancebo, “Terás de dar-lhe combate. No dia em que o ferires de morte o feitiço se quebrará , e de cadáver do bicho a amada surgirá”.
E foi assim que a briga sem fim entre São Jorge e o Dragão começou. Acontece que São Jorge não acreditou e tinha sempre o temor de que, morto o dragão, morto estaria o amor. E ficou brincando de lutar. E foi por isso que a briga nunca chegou ao fim. Passaram-se os séculos, e daqui da terra se podia ver a briga entre São Jorge e o Dragão.
Acontece, entretanto, que como dizem os marxistas – e com toda razão- é na prática que se molda o pensamento. E depois de tanto lutar, São Jorge acabou por se esquecer o que significava amar. Perdeu-se como amante, congelou-se como guerreiro. Acontece que os deuses, penalizados com tal destino, resolveram desterrar a bruxa para um asteróide distante. Liberto dos olhos da bruxa, o Dragão voltou a ser o que era, a amante. Qual não foi a surpresa de São Jorge, quando, de armadura, lança e espada, pronto para a batalha, ao invés do horrendo Dragão, encontrou-se com a amada, os deuses esperavam sorrindo, este momento feliz. Mas o pobre São Jorge, depois de tanto lutar, já não sabia amar. Não quis tirar a armadura. Tinha vergonha de nudez. Não largou a espada, não deixou sua lança. Não sabia abraçar. Não sabia beijar. E o pobre guerreiro, outrora amante, compreendeu que seu destino, pelos séculos sem fim, era só lutar. Especialista em poder, nada sabia do prazer. E foi assim que orou aos deuses e lhes pediu seu último pedido: Que a linda donzela fosse de novo transformada em dragão. E é por isso que, até que o universo acabe, em noite de lua cheia, veremos o santo guerreiro lutando contra o dragão da maldade.
Estória triste. Dizem que aconteceu na lua.
Eu, ao contrário, penso que aconteceu na rua.
Pois é este o destino daqueles que, forjados na dureza da luta, quando o milagre acontece, descobrem que não sabem o que fazer com a donzela que o espera. Bem dizia Nitzesche, que é preciso o leão transforme em criança, mas que leão, animal forte, quer se ver despido, garras e juba? Melhor o poder que o prazer.
Elegemos o santo guerreiro na esperança que ele soubesse fazer amor. E descobrimos que, de tanto lutar, perdeu a imaginação de amar.
Parábola que dedico, aos santos guerreiros, destinados a lutar contra os dragões da maldade, incapazes de fazer amor com a cidade...
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